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Relato de uma história de perturbação de anorexia nervosa

 

     Entrou pela porta, sem qualquer expressão emocional no rosto, sem esperança e sem a mínima preocupação do quão o seu estado desnutrido o distanciava apenas de um passo do internamento hospitalar. Comecei a ouvi-lo, atentamente, onde comecei a perceber que vivia no seu coração um vazio enorme, dialogando somente frases tais como “não quero comer, cada vez estou mais gordo e não tenho importância nenhuma para os outros se assim estiver”, “só quero emagrecer, mais nada”, “não tenho medo de ir para o hospital.” Naturalmente,  os sistemas que o rodeavam encontravam-se em pausa no presente, era impossível concentrar-se na sala de aula da faculdade, devido ao seu estado débil físico e psicológico, os amigos, na sua perspetiva, representavam uma ameaça e a família encontrava-se zangada e triste devido à comida escondida que encontravam, aos treinos físicos constantes e à sua incapacidade de lidar com os sintomas dele. Havia um… um aspeto onde toda a sua motivação e esperança se encontravam, e já sei que estão a pensar no mesmo que eu, emagrecer.

     Semana após semana, era este o sentido de vida dele, quase nem era permitido falar-se mais nada em consultório a não ser como é que iria emagrecer, como odeia o corpo, como comprar e tomar comprimidos às escondidas. Ouvia-o sabendo que ainda não estava preparado para trabalhar outros temas e pensava: O que levou esta pessoa a chegar aqui? Quais são as suas experiências, histórias, que o trouxeram até aqui? Com o passar dos tempos começamos a introduzir lentamente em consulta, temas do passado, memórias, experiências e estes começaram a ganhar mais espaço. A dieta continuava, a desnutrição e falta de energia no seu corpo lembrava uma planta nos seus últimos dias. Foram vividas por si, desde criança, experiências horríveis de desvalorização, maus-tratos, ausência de afeto entre tantos outros. Isto fez com que se sentisse, podre, vazio, sem valor. Aos poucos e poucos começou a ganhar consciência de si e da sua história, como se de uma planta a florescer lentamente se tratasse. E no fim, passados tantos momentos, percebeu, que a sua história o fez sentir inconscientemente que estar doente e desnutrido era é única forma de ter atenção e cuidado do outro, e que o corpo era a única coisa que controlava. E começou a florescer, e cada vez mais a ingressar nos objetivos terapêuticos, com altos e baixos.

     Dentro de várias vitórias, a nossa grande vitória foi comer um rebuçado. Sim, um simples rebuçado, representou um novo caminho. Passado mais de 6 meses, já se encontrava livre de perigo de internamento e começara a construir uma nova forma de atenção e valorização de si próprio e do outro.

Começou a terapia.

     Dia após dia, trazia-me diferentes formas de controlo que não o corpo, o carro após tirar a carta de condução, as notas positivas nas cadeiras da faculdade, o objetivo de querer ser valorizado pelos outros pela sua forma de estar e ser. Continuava a haver altos e baixos, mas cada vez eram menos acentuados. E acima de tudo, começou a viver a sua vida e identidade e não a sua doença. Inclusive foi corajoso, ao ponto de se tentar reconciliar com o seu passado e ressignificá-lo.

     “Sinto que estou pronto para ir, já não preciso mais de sessões, se um dia precisar sei que posso voltar.”

      E foi.

Ana Teixeira Mendes 

Dra Ana Teixeira Mendes

ISPA
Ordem dos Psicólogos Portugueses
Entidade reguladora da saúde

©2024 por Dra Ana Teixeira Mendes 

 

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